"AINDA ESTAMOS AQUI"
- Victor de Almeida
- 9 de mar.
- 3 min de leitura

MARDI GRAS À BRASILEIRA
Entre muitos aspectos, há algo que indiscutivelmente torna o Brasil um lugar único no mundo: a popular festa ocorrida quarenta dias antes da Páscoa. A “terça-feira gorda” ou Mardi Gras é vivenciado em Dacar, Marselha, Binche, Praga, Nova Orleans, e em Londres – onde também é chamado de Pancake Day. Todas caracterizam-se por festivais de rua, desfiles de carros, músicas e fantasias; mas nenhum dele é o Carnaval. Não que exista nessa afirmação uma hierarquização cultural ou o estabelecimento de uma competição inútil entre manifestações populares – até porque posso argumentar somente sobre a festa de meu país, mas há nessa construção uma tentativa de encontrar algo que seja único do movimento brasileiro e que diferencie a experiência coletiva.
O Carnaval brasileiro é uma semana onde se é possível exorcizar o sofrimento e as injustiças, onde a expiação individual torna-se consagração coletiva, onde o plebeu veste a coroa de um rei e faz das ruas seu palácio. Um povo forjado em meio a tanta angústia, anseia pela festa anual onde poderá finalmente sonhar uma nova realidade para si – ainda que efêmera, não menos honesta.
AINDA ESTOU AQUI
É Carnaval no Rio, e aqui em Viseu, Portugal, não me contenho em assistir novamente AINDA ESTOU AQUI (2024), filme dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e Selton Mello. O longa é baseado na autobiografia homônima de Marcelo Rubens Paiva, e aborda o período em que seu pai, Rubens Paiva, foi assassinado pela ditadura brasileira, e sua família, liderada por sua mãe Eunice Paiva, precisa lidar com a dor de sua ausência.
O filme resgata alguns códigos da filmografia exitosa de Walter Salles. As cartas – fundamentais em seu CENTRAL DO BRASIL (1998) – são elemento narrativo importante entre a família Paiva e a filha mais velha que está em Londres. Funcionam como uma espécie de dispositivo por onde nós, espectadores, conseguimos ter certa dimensão de como a tragédia da democracia brasileira chegava aos olhos e ouvidos do mundo. O diretor é especialmente sensível quando constrói momentos – particularmente o almoço da família Paiva – em que vemos uma família comum, divertindo-se e fazendo planos, vivendo para além das atrocidades diárias cometidas pelos militares. Talvez seja esse o elemento mais assustador do filme: a tragédia poderia a qualquer momento atravessar a vida comum e transformá-la para sempre.
O diretor também acena para sua própria filmografia ao escolher Fernanda Torres e Fernanda Montenegro para interpretarem Eunice Paiva. Além do emblemático papel de Fernanda Montenegro em CENTRAL DO BRASIL (1998), sua filha Fernanda Torres já havia protagonizado seu TERRA ESTRANGEIRA (1996). Se elas não são necessariamente a representação do povo brasileiro, carregam no olhar a força de quem precisa ser forte em uma realidade esmagadora e aterrorizantemente reconhecível.
Em termos de construção de imagem, o filme encontra sua maior força na casa da família Paiva. A construção de espaço é refinada e esquadrinhada por uma câmera que parece flutuar por entre os cômodos, à procura de uma família que apesar do título, parece não estar mais lá – pelo menos não como antes.
UM FIM DE SEMANA DE COPA
Entre cervejas e blocos de rua, o último final de semana foi especial para o Brasil. Concorrer em 3 categorias ao Oscar foi motivo suficiente para que tratássemos a cerimônia do cinema estadunidense como uma final de Copa do Mundo. Não que o prêmio seja o pináculo de nossa experiência artística, mas nos fez suspender o famigerado “complexo de vira-lata”, proposto por Nelson Rodrigues. Por uma semana passamos a amar o cinema brasileiro, a nos orgulhar de nossa língua e de nossos artistas. Por uma semana foi possível experienciar um país de possibilidades e não de agouros.
Mas e agora? O fim da festa profana se avizinha, as fantasias costumam voltar aos armários, e os confetes são varridos do chão. O que faremos com a autoestima e valorização cultural conquistadas? Resta torcer para que possamos tornar nosso sonho em real, e que o filme de Salles dê lugar a uma avenida ainda mais colorida e pulsante.
*Crônica escrita por Victor de Almeida, membro e diretor de comunicação do Studio CASA.
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